quinta-feira, 12 de abril de 2012

Gravidez x crack x atendimento

Grávidas usuárias de crack terão atendimento

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Durante os nove meses de gestação, mulheres receberão acompanhamento clínico, psiquiátrico e obstétrico


Jornal Diário de S. Paulo - Derla Cardoso

De acordo com M., o desejo de parar de usar droga veio quando os filhos foram tirados. “Cansei de ficar nisso. Já perdi tudo o que tinha, então resolvi me tratar. Estou grávida da minha quarta filha e quero voltar a ser a mãe que eu era. Sinto falta dos meus filhos até quando ficavam brigando. No Ano Novo, minha filha pegou uma florzinha que estava na água da praia, jogou de volta e pediu assim: 'moça do mar faça que minha mãe pare de usar droga e venha ficar comigo'. Isso ficou na minha cabeça. Está na hora de ficar bem comigo”, contou num relato emocionado.

Hoje, a usuária está grávida de oito meses, mas conseguiu se internar para se tratar. A primeira semana de tratamento, segundo ela, foi a pior. “Aprendi a desviar a vontade de fumar crack. Quando vem, encontro alguma coisa para fazer como ler um livro. Quero a minha família de volta, então não é possível que essa vontade vai ficar comigo para sempre.”

A mulher é uma das pacientes do Hospital Psiquiátrico Lacan, de São Bernardo. A partir de agora, o local poderá atender outras grávidas que também sejam usuárias de crack. O serviço especializado foi inaugurado nesta terça-feira (10) de manhã pelo governador Geraldo Alckmin.

Serão 10 leitos exclusivos para gestantes que terão acompanhamento clínico, psiquiátrico e obstétrico. O investimento para que o trabalho seja realizado será de R$ 700 mil por ano.

As vagas, de acordo com o governador, serão disponibilizadas para pacientes não só da região, mas de todo o estado. O motivo da implantação do serviço exclusivo foi o aumento do número de mães que perderam tutelas devido ao vício. “As internações são voluntárias e nós queremos que continuem assim. O Estado precisa oferecer esse tratamento gratuito para quem quer largar a droga. Observamos que muitas mulheres estão perdendo a guarda de seus filhos por conta do vício e por isso queremos reverter esse quadro”, afirmou o governador que lembrou que a internação compulsiva só acontece através de determinação judicial.

Estado não tem número de grávidas viciadas
Secretaria de Estado da Saúde trabalha com levantamentos feitos dentro de hospitais, por isso, secretário acredita que leitos serão suficientes

De acordo com o secretário de Estado da Saúde de São Paulo, Giovanni Guido Cerri, não é possível obter, de maneira absoluta, o número de grávidas usuárias de crack. A Secretaria tem dados, mas as pacientes conhecidas são as que já estão dentro dos hospitais estaduais. “A gente não tem notícia desse número até mesmo porque a maioria das mulheres grávidas não declara que é usuária porque tem medo de perder a guarda do filho. Muitas vezes descobrimos porque durante o trabalho de parto a gestante acaba contando”, explicou.

A Secretaria trabalha com os dados de um levantamento inédito que foi produzido na maternidade estadual Leonor Mendes de Barros. A pesquisa apontou aumento do número de mães dependentes de crack e cocaína que perderam a tutela de seus bebês em razão do vício.

Por meio do serviço social, o hospital encaminhou em 2011, para a Vara da Infância e Juventude, 52 crianças cujas mães não tinham condições de manter a guarda do filho em virtude da dependência química.

Esse aumento foi progressivo no decorrer dos anos. Em 2007, houve apenas um caso. Em 2008, 15 crianças foram encaminhadas à Vara da Infância e Juventude. Já em 2009, foram 26 casos, e em 2010, 43.

Além disso, segundo o secretário, há algumas gestantes que foram descobertas na “Cracolândia”.“Precisamos falar que é muito importante a internação voluntária da paciente. Queremos que a paciente colabore com o tratamento”, disse.

Para Cerri, os leitos que serão disponibilizados devem ser suficientes para atender a demanda de grávidas usuárias de crack do estado.

Tratamento exige acompanhamento especial

Os leitos exclusivos para gestantes só podem ser usados por mulheres que estejam com até seis meses de gestação.

As internações são breves e duram até 90 dias. A primeira semana, no entanto, é a pior e chamada de “fissura” pelos profissionais. “É um início bem complicado. Muitas delas querem sair e ficam nos perguntando o que precisam fazer para serem mandadas embora da internação. Muitas vezes cometem até atos agressivos. Eu mesma já fui até roubada”, contou a obstetra do Hospital Psiquiátrico Lacan, de São Bernardo, Cíntia Pereira.

Ainda segundo a médica, o período de gestação é propício para que a usuária inicie um tratamento porque está mais sensível. Mesmo assim, as recaídas são muitas.“É um trabalho de formiguinha. Não temos nem um índice confiável sobre a quantidade delas que de fato param de usar as drogas”, explicou.

Durante o tratamento é analisado o caso da gestante para saber que tipo de medicamento pode ser administrado para ajudar a controlar o vício.

Cinco grávidas já passaram por tratamento no Lacan. Destas, duas já tiveram os filhos, mas a médica afirmou não saber se retornaram a usar o crack.“Antes atendíamos, mas os leitos não eram exclusivos. Agora temos uma retaguarda caso alguma das mulheres entre em trabalho de parto.”

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