| Grávidas usuárias de crack terão atendimento | | | |
| Durante os nove meses de gestação, mulheres receberão acompanhamento clínico, psiquiátrico e obstétrico
De acordo com M., o desejo de parar de usar droga veio quando os filhos foram tirados. “Cansei de ficar nisso. Já perdi tudo o que tinha, então resolvi me tratar. Estou grávida da minha quarta filha e quero voltar a ser a mãe que eu era. Sinto falta dos meus filhos até quando ficavam brigando. No Ano Novo, minha filha pegou uma florzinha que estava na água da praia, jogou de volta e pediu assim: 'moça do mar faça que minha mãe pare de usar droga e venha ficar comigo'. Isso ficou na minha cabeça. Está na hora de ficar bem comigo”, contou num relato emocionado. Hoje, a usuária está grávida de oito meses, mas conseguiu se internar para se tratar. A primeira semana de tratamento, segundo ela, foi a pior. “Aprendi a desviar a vontade de fumar crack. Quando vem, encontro alguma coisa para fazer como ler um livro. Quero a minha família de volta, então não é possível que essa vontade vai ficar comigo para sempre.” A mulher é uma das pacientes do Hospital Psiquiátrico Lacan, de São Bernardo. A partir de agora, o local poderá atender outras grávidas que também sejam usuárias de crack. O serviço especializado foi inaugurado nesta terça-feira (10) de manhã pelo governador Geraldo Alckmin. Serão 10 leitos exclusivos para gestantes que terão acompanhamento clínico, psiquiátrico e obstétrico. O investimento para que o trabalho seja realizado será de R$ 700 mil por ano. As vagas, de acordo com o governador, serão disponibilizadas para pacientes não só da região, mas de todo o estado. O motivo da implantação do serviço exclusivo foi o aumento do número de mães que perderam tutelas devido ao vício. “As internações são voluntárias e nós queremos que continuem assim. O Estado precisa oferecer esse tratamento gratuito para quem quer largar a droga. Observamos que muitas mulheres estão perdendo a guarda de seus filhos por conta do vício e por isso queremos reverter esse quadro”, afirmou o governador que lembrou que a internação compulsiva só acontece através de determinação judicial. A Secretaria trabalha com os dados de um levantamento inédito que foi produzido na maternidade estadual Leonor Mendes de Barros. A pesquisa apontou aumento do número de mães dependentes de crack e cocaína que perderam a tutela de seus bebês em razão do vício. Por meio do serviço social, o hospital encaminhou em 2011, para a Vara da Infância e Juventude, 52 crianças cujas mães não tinham condições de manter a guarda do filho em virtude da dependência química. Esse aumento foi progressivo no decorrer dos anos. Em 2007, houve apenas um caso. Em 2008, 15 crianças foram encaminhadas à Vara da Infância e Juventude. Já em 2009, foram 26 casos, e em 2010, 43. Além disso, segundo o secretário, há algumas gestantes que foram descobertas na “Cracolândia”.“Precisamos falar que é muito importante a internação voluntária da paciente. Queremos que a paciente colabore com o tratamento”, disse. Para Cerri, os leitos que serão disponibilizados devem ser suficientes para atender a demanda de grávidas usuárias de crack do estado. As internações são breves e duram até 90 dias. A primeira semana, no entanto, é a pior e chamada de “fissura” pelos profissionais. “É um início bem complicado. Muitas delas querem sair e ficam nos perguntando o que precisam fazer para serem mandadas embora da internação. Muitas vezes cometem até atos agressivos. Eu mesma já fui até roubada”, contou a obstetra do Hospital Psiquiátrico Lacan, de São Bernardo, Cíntia Pereira. Ainda segundo a médica, o período de gestação é propício para que a usuária inicie um tratamento porque está mais sensível. Mesmo assim, as recaídas são muitas.“É um trabalho de formiguinha. Não temos nem um índice confiável sobre a quantidade delas que de fato param de usar as drogas”, explicou. Durante o tratamento é analisado o caso da gestante para saber que tipo de medicamento pode ser administrado para ajudar a controlar o vício. Cinco grávidas já passaram por tratamento no Lacan. Destas, duas já tiveram os filhos, mas a médica afirmou não saber se retornaram a usar o crack.“Antes atendíamos, mas os leitos não eram exclusivos. Agora temos uma retaguarda caso alguma das mulheres entre em trabalho de parto.” |



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